O que ficou, a gente tem que juntar. Mesmo que aquilo que foi
tenha sido a peça fundamental, que dava sentido e que fazia a coisa toda
funcionar. Mas, se não está mais aqui, a gente tem que tentar encaixar tudo da
melhor maneira, pra de alguma forma encontrar sentido, mesmo que por uma nova
lógica. Não precisa esquecer como era. Toda beleza está guardada, todo sentido
nos move a outros olhares, outros modos de entender como realizar novos
cenários com aquilo que herdamos. Aquilo que está dentro de nós, que só a gente
sabe o valor e só a gente consegue tocar, pra ir juntando com cuidado, peça por
peça, e ir reconstruindo tudo com muito capricho.
segunda-feira, 25 de outubro de 2021
O que ficou
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Meu Reino
Não
poder sair pra tomar uma cervejinha gelada com os amigos é realmente opressor.
Vai deixando a gente melancólico. Primeiro você sente falta das rotinas e
pessoas atuais, depois começa a voltar no tempo e quando vê está com saudade da
amiguinha que sentava na carteira ao lado na escola.
E olha
que fui casado duas vezes, mas nem no casamento era assim. Eu sempre consegui
fugir, ou de casa ou do casamento. Na prisão os caras socializam, mas nós não podemos. No meu caso, que moro sozinho, é como ficar
na solitária.
Claro que saio pra fazer coisas rápidas e necessárias durante
o dia e logicamente tenho algum trabalho pra fazer em casa, mas sobra tempo
livre demais. Aí você larga o livro, já viu um filme e vai ouvir um som no
computador. E começa a olhar pra rede social e sente vontade de escrever.
Enquanto está escrevendo em sua linha do tempo está bom. O pior é olhar para as
fotos das pessoas, muitas desconhecidas, e começar a achar que são de verdade.
Que podem interagir com você ou algo assim. Esse é o fundo do poço.
O melhor mesmo é começar a organizar as ideias aqui dentro da
minha cabeça, onde realmente tudo acontece. Aqui eu mando. Seleciono quem quero
ver, para onde quero ir, faço planos de fuga e traço metas inalcançáveis.
Pode até ser que o
mundo vá ficando mais interessante aqui no meu reino. É perigoso até que querer
ficar aqui pra sempre.
segunda-feira, 29 de abril de 2019
Antes da chuva
Antes
da chuva, fui fazer uma caminhada pela cidade. Passei na frente do hospital
onde nasci, continuei em frente e fui parar na escola onde aprendi a ler e
escrever. Depois virei a esquina, desci a avenida e passei na frente do banco
da praça onde muitas vezes esperei pela minha primeira namorada. Em seguida,
respirei fundo e fui caminhando, até passar ao lado do cemitério onde um dia
serei enterrado, talvez pisando exatamente no lugar do asfalto onde alguém vai
derrubar uma lágrima por mim, enquanto acompanha o cortejo que sairá do
velório. Não sei quanto tempo falta para esse desfile e não dá pra esperar ali
parado, então, continuei minha caminhada e estou de novo em casa. Tomei um
banho e vou descansar, pois provavelmente ainda tenho coisas pra fazer
até as primeiras gotas começarem a cair.
quinta-feira, 12 de abril de 2018
Existe muita vida lá fora
Nos últimos tempos li dois
livros de não ficção escritos por artistas que admiro muito: “Sobre a Escrita” (Stephen
King) e “Longe e Distante” (Neil Peart). Nas duas obras, os autores comentam
sobre o esforço contínuo para não deixar que o trabalho se transforme no aspecto
mais importante de suas vidas.
Alguém pode dizer que é fácil
para artistas com talento e fama gigantescos dizer que o trabalho não os define,
já que conquistaram independência para fazer tudo mais que desejarem. Mas acredito
que justamente por seus nomes se associarem com tanta força aos seus ofícios, o
conselho é bastante válido.
Fui jornalista durante 20
anos, trabalhando em diversos veículos de comunicação em Araraquara-SP e, mais
de uma vez, pessoas poderosas e influentes bateram nas minhas costas e disseram
“você é o melhor jornalista da cidade”. Claro que nunca acreditei que era o “melhor
jornalista da cidade”, o que seria até patético, já que nem dentro da minha
casa fui o melhor, pois meu pai foi um brilhante profissional da área.
Mas, por muito tempo,
acreditei que ser jornalista era o que me definia, já que dediquei longas horas
em redações de jornal, fechando edições, sem comer direito e longe das pessoas
que me amam, apenas porque acreditava que aquilo me daria um futuro, seja lá qual
fosse. Bem, o futuro chegou, minha profissão está cada vez mais desvalorizada e
eu, assim como tantos colegas, não consigo mais apostar todas as minhas fichas
no ofício que exerci durante tanto tempo.
Depois de duas décadas como
jornalista, demorou um pouco para aceitar que tudo mudou. Fiquei meio
desnorteado, me sentindo desvalorizado, achando que por não ser mais jornalista
não era mais nada na vida.
Hoje sou artesão, estampo
camisetas, atividade que me proporciona enorme prazer, pois une paixões como música
e cinema, celebradas em peças personalizadas. Fiquei muito feliz também por
descobrir que ainda posso aprender uma atividade e trabalhar nela tão bem
quanto fazia em minha outra profissão.
Ainda trabalho em jornais como
freelancer e continuo com necessidade de escrever, o que faço em espaços como
esse, já que os antigos modelos se esgotaram. Mas é bom diversificar e
descobrir outra profissão, principalmente porque hoje sei que, se não puder
exercê-la mais, tenho condições de mudar de novo, quantas vezes for necessário.
As pessoas precisam rotular umas
às outras o tempo todo. Se alguém está passando por uma fase ruim e exagera na
bebida, logo vira “o bêbado”, ou se fica durante muitos anos fazendo as mesmas
coisas em uma empresa, logo vira “o porteiro”, “a tia do café”, “o jornalista”
ou até mesmo “o baterista”. Por isso é tão importante sabermos quem somos de
verdade, independentemente dos rótulos que nos grudam na testa.
Se um dia fui “o jornalista” e
não existe mais emprego na área, o que sou agora? Nada? Isso não é verdade. E
uma amiga muito importante me ensinou justamente isso na fase em que ainda
estava aceitando que teria de mudar de área. Ela olhou em meus olhos e disse: “Você
é tão importante pra tanta gente, porque acredita que não é mais nada agora?”.
Seguem trechos dos livros que
mencionei no texto:
“A última coisa sobre a qual
quero falar nesta parte é minha mesa. Durante anos sonhei com uma peça de
carvalho maciço que dominasse uma sala – nada de mesa pequena na
lavanderia-closet de um trailer, nada de espaços apertados em uma casa alugada.
Em 1981, consegui a mesa que eu queria e a coloquei no meio de um escritório
espaçoso, com claraboia (um estábulo convertido em loft nos fundos da casa).
Durante seis anos eu me sentei àquela mesa, bêbado ou fora de mim, como o capitão
de um navio comandando uma viagem para lugar algum.
Depois de um ano ou dois
sóbrio, eu me livrei daquela monstruosidade e montei uma sala de estar onde a
mesa ficava antes, escolhendo os móveis e um belo tapete turco com a ajuda da
minha mulher. No início da década de 1990, antes de saírem para o mundo, meus
filhos costumavam aparecer à noite para assistir a um jogo de basquete, um
filme ou comer pizza. Eles geralmente deixavam uma montanha de migalhas quando
iam embora, mas eu não me importava. Eles vinham, pareciam gostar de estar
comigo, e eu sei que gostava de estar com eles. Comprei outra mesa - artesanal,
linda e com metade do tamanho da T. Rex. Coloquei no lado esquerdo do escritório,
em uma quina sob o telhado inclinado, que parece muito com aquele sob o qual eu
dormia em Durham. Mas não há ratos nas paredes e nem uma avó senil no andar de
baixo gritando para que alguém alimente Dick, o cavalo. Estou sentado aqui
agora, um homem coxo de 53 anos, com visão ruim e nenhuma ressaca. Estou fazendo
o que sei fazer, tão bem quanto sou capaz. Passei por todas as coisas que
contei aqui (e muitas outras que não contei), e agora vou contar a você tanto
quanto puder sobre a profissão. Como prometido, não vai ser longo.
Começa assim: coloque sua mesa
em um canto e, todas as vezes em que se sentar para escrever, lembre-se da
razão de ela não estar no meio da sala. A vida não é um suporte à arte. É
exatamente o contrário.”
(Stephen King – “Sobre a
Escrita”)
“De volta a abril desse ano,
pouco antes do início da turnê de Snakes and Arrows, fui entrevistado para um
canal de TV do Canadá especializado em música, o MuchMusic. O cinegrafista
colocou o entrevistador e eu na sala de ensaios, em frente à bateria, onde eu
estava trabalhando já há várias semanas. Algumas das perguntas do jornalista
pareciam pender para certa visão estrelada do meu trabalho, principalmente com
relação aos shows, e tentei explicar para ele que eu não considero a turnê, ou
até mesmo tocar bateria, como minha vida.
Ele pareceu perplexo, talvez
tenha me julgado entediado e cínico, porque sua próxima pergunta foi: “Quando
você começou a se sentir assim?”.
Parei para pensar por um
segundo, então fiquei feliz em sentir a lâmpada mental acender com uma resposta
verdadeira e clara. Pude responder com toda a sinceridade: “Cerca de um mês
depois do início da primeira turnê, em 1974”. Foi realmente quando comecei a
sentir que sair em turnê não era “suficiente”, o que resultou em adotar a
leitura como um meio de aproveitar melhor os dias e noites na estrada.
Um pouco por mera
contrariedade, mas parte pelo desejo de contexto, eu geralmente me refiro a
tocar bateria com desrespeito deliberado, como “o emprego” ou “bater coisas com
baquetas”. Obviamente significa muito mais para mim do que isso e tem sido algo
central na minha vida, mas mesmo assim parece meio triste ouvir alguém dizer que
seu trabalho é sua vida.
Não há amigos nem família? Nem
leitura ou escrita? Nem trilhas ou esqui cross-country ou observação de
pássaros ou andar de moto ou nadar?
Só trabalho?
Acho que não.
No começo da turnê, quando
tocamos em Portland, Oregon, alguém da plateia parece que tinha assistido
àquela entrevista, e se aventurou a discordar publicamente da minha opinião
quanto à minha própria vida. Bem no fundo, à esquerda do palco, vi um cartaz
enorme, com letras garrafais, em que se lia “NP – ESTA É SUA VIDA”.
Bem, obrigado, mas não,
obrigado.
É claro que é apenas a minha
opinião, mas para mim, minha vida não é dedicada ao lugar, mas à jornada e à
hora da chegada.
Tendo consciência disso o
tempo todo, sei que cedo demais vai chegar a hora da partida.”
(Neil Peart – “Longe e Distante”)
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
Inservíveis
Remover do coração entulhos e inservíveis em geral ajuda a dar lugar a tudo que é novo e, ainda por cima, dificulta o contato com a zika e com todas as demais pragas que possam afetar nossa saúde.
domingo, 17 de dezembro de 2017
Randy Rhoads: o impacto da morte de um gênio
O baixista Rudy Sarzo se juntou à banda de Ozzy Osbourne no início dos anos 80 por indicação de Randy Rhoads, jovem guitarrista com quem havia tocado no grupo norte-americano Quiet Riot, na década de 70. Mas uma estúpida queda de avião matou Randy Rhoads em 1982, aos 25 anos, no meio da turnê, abrindo uma lacuna irreparável na música, tal a dimensão do talento demonstrado por aquele guitarrista em tão pouco tempo de carreira.
Além disso, Ozzy Osbourne, que à época lidava com seus demônios, principalmente o vício pesado em drogas e álcool, perdeu um amigo tão importante naquele momento de sua vida, que nunca chegou a se recuperar totalmente.
Depois de sair da banda de Ozzy, o baixista Rudy Sarzo voltou ao Quiet Riot e, apenas com a esperança de retomar seu prazer pela música, gravou o disco Metal Health, lançado em 1983, que acabaria se transformando no maior sucesso comercial do grupo.
Sarzo trabalharia depois com diversas outras bandas importantes, incluindo Whitesnake e a banda de Ronnie James Dio, com quem tive a honra de vê-lo tocar em um show em São Paulo, em 2004.
“A única razão pela qual deixei a banda de Ozzy foi a morte trágica de Randy Rhoads durante a turnê. Todos nós perdemos o prazer de tocar. Nós apenas seguimos a turnê para manter Ozzy ocupado e evitar que ele fosse para casa para literalmente beber até morrer. A cada noite era como se tentássemos alcançar o impossível: subir no palco e entreter as pessoas. Ainda que fazer música seja uma alegria, a audiência não deveria saber o quanto eram difíceis as coisas nos bastidores, por seguirmos com a turnê sem Randy Rhoads. Era virtualmente impossível e, ainda assim, subimos ao palco todas as noites.”
(Rudy Sarzo)
sábado, 18 de novembro de 2017
Malcolm Young e a juventude que mora em nós
A morte do guitarrista e fundador do AC/DC,
Malcolm Young, aos 64 anos, anunciada neste sábado (18), não somente reforça a
certeza de que nossos heróis irão embora com o passar dos anos, mas escancara a
constatação da passagem do tempo que nos atinge a todos. É o fim de uma era e
mais um passo em direção a outra época, em que olharemos cada vez mais para o
passado, em troca das expectativas de lançamentos dos artistas que construíram
aquilo que entendemos por música.
Principal compositor e idealizador do conceito e do som rock and roll cru e poderoso do AC/DC, Malcolm e seu irmão Angus Young elevaram à enésima potência os riffs de seu ídolo Chuck Berry e adicionaram à fórmula toneladas de irreverência beirando a irresponsabilidade, forjada em litros e litros de cerveja, dentes quebrados em brigas de bar e porradas de pais e maridos enciumados. A simples menção ao nome AC/DC remete ao cheiro dos discos de vinil e à sensação de adrenalina correndo nas veias adolescentes no início das noites de sábado, com a antecipação de todo tipo de promessa que a vida poderia trazer.
Eles eram cinco maloqueiros que não tinham nada que os credenciasse ao sucesso, mas pela lógica do rock and roll, diferente de todas as outras, viraram exemplo para todos os candidatos a delinquentes do mundo. Eles eram a coisa real e faziam com que nós, moleques que iam beber cerveja e falar sobre discos no boteco da esquina, nos sentíssemos tão perigosos quanto eles, simplesmente por sermos seus fãs.
Ouvir AC/DC é embarcar em uma máquina do tempo e sentir novamente a possibilidade de sermos tudo aquilo que não conseguimos ser, resgatar aquela sensação de que ainda há tempo para cometermos todas as loucuras que sua música nos impele a fazer.
Malcolm era a mola-propulsora desse sentimento. Ao lado de Angus Young, Bon Scott, Phil Rudd, Marc Evans, Cliff Williams e Brian Johnson, era o chefe de um bando que teve baixas ao longo do caminho, porque o caminho foi longo e trilhado sem economias. Malcolm dedicou a vida ao rock and roll e morreu. Aos 64 anos, quando a maioria das pessoas escolhe parar para viver.
Não importa o que Angus escolha fazer daqui pra frente, ou o que escolheu fazer desde 2014, quando Malcolm saiu da banda, devido à doença degenerativa que o vitimou neste sábado. Não se trata de julgar este ou aquele substituto, não se trata de preconceito com nomes ou estilos musicais. Trata-se de dignidade. De aceitação. De entender que o tempo passou e de agradecer todos os dias porque a música ficou. E com ela a possibilidade de resgatarmos por alguns momentos a juventude que mora em nós.
Principal compositor e idealizador do conceito e do som rock and roll cru e poderoso do AC/DC, Malcolm e seu irmão Angus Young elevaram à enésima potência os riffs de seu ídolo Chuck Berry e adicionaram à fórmula toneladas de irreverência beirando a irresponsabilidade, forjada em litros e litros de cerveja, dentes quebrados em brigas de bar e porradas de pais e maridos enciumados. A simples menção ao nome AC/DC remete ao cheiro dos discos de vinil e à sensação de adrenalina correndo nas veias adolescentes no início das noites de sábado, com a antecipação de todo tipo de promessa que a vida poderia trazer.
Eles eram cinco maloqueiros que não tinham nada que os credenciasse ao sucesso, mas pela lógica do rock and roll, diferente de todas as outras, viraram exemplo para todos os candidatos a delinquentes do mundo. Eles eram a coisa real e faziam com que nós, moleques que iam beber cerveja e falar sobre discos no boteco da esquina, nos sentíssemos tão perigosos quanto eles, simplesmente por sermos seus fãs.
Ouvir AC/DC é embarcar em uma máquina do tempo e sentir novamente a possibilidade de sermos tudo aquilo que não conseguimos ser, resgatar aquela sensação de que ainda há tempo para cometermos todas as loucuras que sua música nos impele a fazer.
Malcolm era a mola-propulsora desse sentimento. Ao lado de Angus Young, Bon Scott, Phil Rudd, Marc Evans, Cliff Williams e Brian Johnson, era o chefe de um bando que teve baixas ao longo do caminho, porque o caminho foi longo e trilhado sem economias. Malcolm dedicou a vida ao rock and roll e morreu. Aos 64 anos, quando a maioria das pessoas escolhe parar para viver.
Não importa o que Angus escolha fazer daqui pra frente, ou o que escolheu fazer desde 2014, quando Malcolm saiu da banda, devido à doença degenerativa que o vitimou neste sábado. Não se trata de julgar este ou aquele substituto, não se trata de preconceito com nomes ou estilos musicais. Trata-se de dignidade. De aceitação. De entender que o tempo passou e de agradecer todos os dias porque a música ficou. E com ela a possibilidade de resgatarmos por alguns momentos a juventude que mora em nós.
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